Você com certeza já viu um filme mais ou menos assim: uma professora ou professor idealista chega até uma escola arruinada na periferia ou um colégio tradicional que atende alunos ricos. Os alunos estão desmotivados e perdidos, envolvidos com o crime ou presos nas cobranças familiares. Então, o professor por meio de uma série de ações abnegadas sacrifica-se incansavelmente para resolver os problemas daquela instituição: seja vencendo as limitações econômicas nas escolas públicas ou questionando o ensino tradicional sufocante em grandes instituições privadas, são as ações extraordinárias de um indivíduo que acendem uma luz, ainda que breve, na vida escolar.

Muitas dessas histórias são inspiradas em eventos reais e, certamente, há ainda muitas belas histórias acontecendo todos os dias que poderiam ser contadas. A grande questão é que essa narrativa que pode ser vista como um elogio por muitos, acaba por ser na realidade uma terrível armadilha que reforça no imaginário social a ideia de que a docência deve ser missionária, que ser professor é ser um super-herói.

Veja, calma! Não se trata de dizer que os professores ou mesmo os indivíduos não devem enfrentar as questões que se apresentam (seja desigualdade social, seja a didática tradicional), mas sim que essa abordagem eclipsa os problemas reais, tornando todo tipo de violência ou privação algo “natural” e até mesmo “belo”. Celebra-se o sofrimento do profissional, como uma ação exemplar que deve ser reproduzida por todos desviando o foco dos elementos que tornam tanto sacrifício necessário para exercer sua profissão.

Observando essas narrativas a professora Elí Fabris, da UNISINOS, escreveu um interessante artigo chamado A pedagogia do herói nos filmes hollywoodianos. Nesse trabalho, ela reflete sobre a prática pedagógica e as narrativas apresentadas em dezesseis filmes que abordam o ambiente escolar.

“Recentemente, ao analisar alguns filmes produzidos por Hollywood com um grupo de professoras do ensino básico, uma delas relatou: “sempre me senti muito frustrada ao assistir esses filmes sobre escolas e professores”; segundo ela, os modelos apresentados nos filmes são inatingíveis para os mortais professores e professoras de nossas escolas. É sobre esse modelo de pedagogia que os filmes hollywoodianos por mim analisados pautam suas histórias.”

Segundo ela, as histórias retratadas seguem a fórmula do herói que explora o sacrifício e a dificuldade enfrentadas por um indivíduo como maneira de levar o público a fortes emoções[1]. Isso implica, na maioria das vezes, em um saldo negativo para o professor e a permanência dos problemas.

 

[1] “A fórmula para desenvolver a pedagogia do herói é contrastá-la com a pedagogia do vilão. Com isso quero dizer que Hollywood constrói suas histórias para que tenham sucesso junto ao público, e nada melhor que seguir o tradicional padrão hollywoodiano do filme de heróis e vilões (herói/anti-herói), com um final emocionante em que tudo termine bem, graças ao poder do herói. É, portanto, uma pedagogia extremamente centrada na figura do professor. Mesmo que este seja demitido, que não tenha obtido sucesso na sua promoção pessoal como profissional e que o sistema permaneça igual, o desfecho das histórias é para que o público se sinta satisfeito. O herói exerce também um sacerdócio e por isso ele se contenta com mais uma batalha, mesmo que não tenha onde trabalhar, uma característica que o aproxima do semideus.”

“Com suas histórias em que os professores heróis, na sua grande maioria, precisam enfrentar o sistema, Hollywood indica pontos de deslocamentos do poder, embora em suas histórias geralmente o poder esteja posicionado no sistema e permaneça com ele no final.”

Diante de tanto estímulo, não admira que muitos professores tomem para si essa concepção. Uma indústria tão poderosa quanto a hollywoodiana naturalmente obtém muito sucesso na difusão desses papéis. Dessa maneira, as expectativas da sociedade em relação ao papel do professor permanecem inalteradas: “trabalha por amor”, “ser professor é uma missão, um sacerdócio”…todas essas expressões, na realidade são ecos de um discurso que se sustenta por meio de roteiros cujo objetivo é encantar a audiência. Esse discurso, por sua vez, impede qualquer percepção mais profunda das questões envolvendo a docência, fazendo crer que ser professor é “salvar quantos puder”.

Não poderia encerrar sem frisar novamente que é importante reconhecer as ações individuais e celebrar todos que, graças a essas ações puderam ir mais longe. Um projeto de música, um grupo de estudos, são sempre louváveis. O que devemos nos perguntar é se consideramos justo ou adequado que para realizar o seu trabalho a maioria dos professores precise ser um “Vingador”. Não seria melhor se houvesse financiamento adequado (tanto para remuneração quanto para projetos), maior envolvimento familiar e turmas menos lotadas?

Não é meu objetivo aqui escrutinar exaustivamente os desafios educacionais. Meu desejo é mais singelo. Na próxima vez que você assistir um desses filmes ou a uma reportagem no telejornal enaltecendo um professor-herói, aplauda. Mas também questione.

 

 

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