Donald Trump tem pouco mais de um mês de governo e já demonstrou ser taxativo — no sentido literal e figurado da palavra. Seu protecionismo agressivo, que penaliza produtos estrangeiros na tentativa de blindar a indústria estadunidense, contradiz aquilo que se espera de um capitalista nato: a liberdade econômica e defesa de livre mercado. No entanto, contrariando o fenômeno do “conservador nos costumes e liberal na economia”, o presidente estadunidense é um intervencionista diligente. Porém, diferente do que podemos supor, na realidade, Trump segue à risca um conservadorismo “puro” que nega liberdade plena ao indivíduo e ao mercado. Para entender esse fenômeno, vamos retomar as bases do conservadorismo com Roger Scruton e recuperar a história do desenvolvimento das potências capitalistas com o economista sul-coreano Ha-Joon Chang. Como veremos, o intervencionismo econômico é uma estratégia histórica das potências capitalistas, mesmo aquelas que advogam o livre mercado para, após ascenderem com ajuda estatal, sabotarem países que tentam seguir o mesmo caminho.
Sob os auspícios do conservadorismo, o novo governo de Donald Trump declara como meta “tornar a América grande novamente”. Por trás deste bordão, se escondem aparentes contradições. Surfando a onda da extrema-direita, o presidente do MAGA (Make America Great Again) se coloca como um conservador que rechaça transgêneros e imigrantes ao mesmo tempo que coloca em prática políticas econômicas tão antigas quanto a suposta grandeza estadunidense. Dessa maneira, o presidente ianque ilustra um fenômeno identificado por Ha-Joon Chang em seu livro “Chutando a Escada”: o intervencionismo estatal.
Chang estuda o desenvolvimento histórico dos países mais industrializados e nos apresenta um retrato, no mínimo surpreendente. Nenhum dos países do G7 (grupo dos países mais industrializados) ou das grandes economias atualmente se tornou avançado sem intervenção estatal. Todos contaram com prolongado apoio de seus governos, seja oferecendo linhas de crédito para seus industriais, fazendo espionagem para adquirir novas tecnologias ou investindo em pesquisa e educação pública.
CONSERVADORISMOS
Roger Scruton, nome forte entre os conservadores contemporâneos (já falecido), nos mostra em seu livro Conservadorismo: um convite à grande tradição diversos matizes no interior do conservadorismo. Em linhas mais gerais, o autor identifica o conservadorismo como uma divisão teórica no interior do liberalismo clássico. Enquanto os primeiros grandes liberais defendiam a liberdade plena do indivíduo e dos mercados, Scruton afirma o conservadorismo como um tipo de liberalismo que não faculta ao indivíduo uma liberdade total:
“O conservadorismo moderno, consequentemente, começou na Inglaterra e na França como uma qualificação do individualismo liberal. (…) como defesa do indivíduo contra potenciais opressores e como endosso da soberania popular. Contudo, ele se opunha à visão de que a ordem política está fundada em um contrato, assim como à sugestão paralela de que o indivíduo goza de liberdade, soberania e direitos em um estado natural e pode se livrar do fardo do pertencimento social e político e recomeçar em uma condição de liberdade absoluta.” (p. 21-22)
Definido por um de seus defensores, o conservadorismo reconhece a liberdade individual contra o poder soberano (“o governo”). Mas, quando se trata do papel do mercado, existem divergências entre os conservadores. Por um lado, há aqueles que consideram o livre mercado condição necessária para vida social, como Adam Smith (listado por Scruton como um grande expoente do pensamento conservador) e aqueles que o consideram fruto de distorções que podem levar a uma destruição dos costumes e da cultura, como Coleridge.
Assim, apesar de ter pontos em comum com o liberalismo, como a valorização da liberdade de uma comunidade contra o que considera autoritarismo governamental, há uma subdivisão no interior do conservadorismo que diverge sobre os benefícios do livre-mercado. Ambas as posições conservadoras concordam que todo indivíduo é, em alguma medida devedor da comunidade em que se encontra, o que faz com que comportamentos contrários à moral dominante não sejam bem recebidos. Porém, uma parte considera fundamental um ambiente de liberdade para promover negócios aonde e da forma que quiserem com o mínimo de intervenção estatal (eis o famoso “conservador nos costumes, liberal na economia”). Por outro lado, há aqueles conservadores que reconhecem a necessidade de impor limites ao mercado, pois seu próprio ritmo alucinante constitui uma ameaça à tradição.
Ao observarmos a plataforma de Trump e seus primeiros gestos políticos, podemos constatar que ele se mostra um conservador do tipo cauteloso com o livre mercado. É, portanto, um conservador nos costumes e na economia. Porém, como veremos, ainda que fosse um liberal, sua receita para a economia estadunidense não poderia ser muito diferente, pois a prática comum das economias desenvolvidas é, e sempre foi intervir fortemente na economia para subsidiar seu desenvolvimento industrial.
Meu argumento agora, faz um pequeno desvio pela história do liberalismo para se encontrar novamente com o conservadorismo de Trump um pouco mais adiante. Quero, por meio desse desvio mostrar como conservadores e liberais, apesar de distinções teóricas se alinham na prática.
CHUTANDO A ESCADA: A RECEITA DO DESENVOLVIMENTO
O viés liberal clássico afirma que o caminho para alcançar a prosperidade econômica e social passa por romper barreiras e integrar o comércio mundial com tarifas simbólicas ou inexistentes. Contudo, ao analisar a história dos países que defendem abertamente o livre mercado, encontramos algo muito diferente do que pregam. Vamos por partes. Antes de prosseguir o argumento precisamos compreender a relação entre desenvolvimento tecnológico e econômico.
Para começar: o que se vende mais caro, um saco de arroz ou um microprocessador? Você sabe a resposta. Claro que são produtos diferentes, mas é exatamente esse o ponto. Para ser fabricado, um microprocessador exige domínio tecnológico e materiais refinados o que o faz ser mais valorizado como produto. Entretanto, mesmo o arroz pode ser produzido de forma mais barata e eficiente se houver máquinas adequadas para arar e monitorar o solo, emprego de técnicas que aumentem a produtividade, como pesticidas e manipulação genética das sementes.
Perceba então a implicação direta entre a posse de tecnologias e a liderança no mercado internacional. Os países que hoje exportam produtos de maior valor agregado, que possuem indústrias capazes de fabricar itens competitivos para o comércio mundial, estão “um passo” à frente dos outros em matriz tecnológica[1].
Seguindo tal raciocínio, constatamos que os EUA, estão cada vez mais perdendo potencial tecnológico e, consequentemente estagnando sua capacidade de competir no mercado internacional. Basta lembrar que até mesmo os bonés do MAGA foram fabricados na China ou o golpe que a inteligência artificial chinesa DeepSeek desferiu nas Big Techs do Vale do Silício. Como resposta ao cenário atual de estagnação tecnológica, os EUA estão retomando uma tática muito antiga: o intervencionismo estatal.
O livro de Há-Joon Chang, “Chutando a Escada”, faz um belo estudo histórico das medidas implementadas por séculos em países como Inglaterra e França, ou décadas, como EUA e Japão e nos mostra como estes países querem ocultar a todo custo o papel ativo do Estado em suas economias. Muito além de simplesmente taxar produtos estrangeiros, Chang nos mostra que os governos desses países empregaram uma série de incentivos, como investimento em pesquisa e educação pública, espionagem industrial e patrocínio de ideologias e líderes políticos que permitiram a exportação dos seus produtos.
ESTADO E ECONOMIA
Enquanto teve fôlego, o imperialismo permitiu a alavancagem das economias europeias por meio da pilhagem de matérias primas e um mercado consumidor para seus produtos. Todavia, a origem de sua riqueza e desenvolvimento tecnológico não reside exclusivamente no emprego da força bruta e vampirismo colonial. Uma das muitas ações de Estado que visaram manter o domínio tecnológico e comercial de sua indústria nacional foi a restrição da exportação de mentes e maquinário para potenciais concorrentes, evidenciando a relação umbilical entre Estado e desenvolvimento econômico.
Para exemplificar, na Grã-Bretanha, desde Eduardo III (1327-77) medidas protecionistas são a regra e não a exceção. O monarca medieval proibiu a importação de lã, e atraiu tecelões de Flandres, uma região que detinha grande know-how da indústria do momento. Sob o mesmo espírito, em 1719 a Império Bretão proibiu a emigração de trabalhadores especializados: literalmente, impediu que seus melhores trabalhadores saíssem do país, sob pena de prisão e podendo perder terras e bens na Grã-Bretanha (p. 100).
Por sua vez, os EUA, desde seu nascimento enquanto nação independente intervém na economia nacional. Alexander Hamilton, um dos pais fundadores defende explicitamente em seu “Reports on Manufactures” que era necessário ajuda governamental para favorecer a indústria nacional nascente. Já em 1816 é aprovada uma lei tarifária que situava a taxa de importação de manufaturadas entre 35% e 40%. Durante a crise econômica dos anos 1930, a taxa de importação oscilava entre 48% a 50%. É somente após a Segunda Guerra, em que a Europa se encontrava destruída, que os EUA passam a pregar o livre comércio, uma vez que isso favoreceria suas exportações.
DECIFRANDO TRUMP
O bilionário Trump pode parecer um enigma à primeira vista. Herdeiro, bilionário, figura quase caricata de um capitalista de berço, usando todo poder do Estado para proteger seus industriais. Como vimos, trata-se de uma contradição apenas aparente. Em primeiro lugar, se recorrermos ao conservadorismo como fundamento explicativo do presidente dos EUA, podemos compreendê-lo como um conservador que vê o livre mercado como uma potência que precisa de regulamentação, para evitar que uma certa “anarquia” se instaure e destrua os valores “ocidentais”. Por outro lado, suas ações também podem ser explicadas pela estagnação econômica e tecnológica dos EUA. Como explica Ha-Joon Chang, tarifas e subsídios governamentais, sempre estiveram à mesa da economia estadunidense. Me parece impossível não ver com riso desesperado um Javier Milei posar com uma motosserra pregando o livre mercado, enquanto os EUA elevam tarifas para produtos argentinos.
Tenho certa dificuldade em ver Donald Trump como um conservador “sincero”, no sentido de alguém que se preocupe com “valores”. Todavia, como ator político, ele encarna de maneira calculada o personagem. Apesar de legítimas dúvidas, podemos decifrar o fenômeno Trump à uma ascensão da ideologia conservadora ou a uma simples necessidade econômica de seu país. Seja o que for, parece difícil pressupor caminho diferente paras os EUA sob sua liderança: a mão do Estado protegerá sua economia, enquanto a mão invisível puxa o nosso tapete.