Uma das questões que se debate há, literalmente milênios, é sobre a autoria da Filosofia. Quem teriam sido os primeiros povos a “fazer” filosofia? Aristóteles afirma ser Tales o primeiro filósofo. Diógenes Laércio, um doxógrafo (alguém que compila ideias de filósofos e pensadores) do século III, acompanha essa interpretação. Segundo ele, os bárbaros (os outros povos, sobretudo do oriente) até tinham uma espécie de pensamento organizado, mas nada comparável aos gregos.

 

Por séculos e séculos, a ideia do “milagre grego” persiste em manuais e autores influentes. Cada um deles justifica de várias maneiras sua opção por esse crédito, algo que não vejo problema. Porém, parece ao menos válido refletir sobre algumas questões à luz de algumas fontes antigas.

 

Voltando a Diógenes Laércio, no primeiro livro de seu Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, ele diz sobre Tales: “Ninguém lhe deu lições, com a única exceção de sua viagem ao Egito, onde passou algum tempo com os sacerdotes.”

 

É curioso que tomando lições no Egito, um dos, senão o povo mais avançado em termos tecnológicos e científicos da época, Tales tenha posteriormente criado a Filosofia. Aliás, diga-se de passagem, Pitágoras, pensador grego que teria cunhado a palavra “filosofia” também viajou e se instruiu no Egito…

 

Tales de Mileto e Heráclito de Éfeso: dois dos primeiros filósofos gregos.

 

 

Filosofia no Egito?

Mais recentemente, muitos pesquisadores têm se dedicado a mostrar certas contradições na ideia da invenção grega da filosofia. Renato Nogueira aponta para a centralidade de Amen-em-ope, um alto funcionário da burocracia egípcia há aproximadamente 1300 a.C.

 

Em Os Caminhos da Barca, Amen-em-ope compara a vida à travessia de um rio — é cheia de dúvidas, pois não se vê seu fundo e não se conhece as armadilhas que podem estar escondidas. Mas, se a vida pode ser comparada a um rio, pode-se comparar a racionalidade e o discernimento que dela provém a uma barca que protege e ajuda a passar com segurança pela correnteza. A barca é também uma metáfora que convida a pensar sobre as agitações da vida e da própria alma de cada um: se nos deixarmos levar por nossas paixões, nos tornamos pessoas inflamadas e, por isso, incapazes de pensar e agir com retidão.

 

“Na cultura kemética, ética diz respeito ao agir reto, à capacidade de viver em equilíbrio consigo diante dos desafios e escolhas. O que passa por um exercício filosófico de afastamento da inflamação que impede o discernimento. A capacidade de discernir é um tipo de travessia existencial dentro de uma barca que não se deixa levar pelas intempéries externas. Ou seja, mesmo diante dos problemas concernentes à vida, não devemos ter pressa em respondê-los, correndo o risco de que a irritação seja guia do pensamento e das palavras.” Renato Nogueira – A ética da serenidade: O caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope

 

Mas não se trata de pura instrumentalidade, isto é, de aplicar racionalidade para atingir um objetivo. A racionalidade para Amen-em-ope, assim como para toda a cultura kemética (egípcia), deriva da compreensão de um princípio ordenador que submete a todos, inclusive os deuses: Maat.

 

 

       Amen-em-ope: Museu de Luxor, Egito

.

A Maat e o Logos

O filósofo camaronês Marcien Towa, nos mostra em A Ideia de uma Filosofia Negro-Africana como o pensamento produzido no Egito, muito anterior ao grego, trata-se de Filosofia e não um simples “tipo de pensamento”. A filosofia se caracteriza como uma reflexão sobre o Absoluto, ou seja, sobre aquilo que, em última instância, dá coerência e ordem à realidade/mundo. Essa é a interpretação clássica, aceita também pelos defensores do milagre grego.

Nessa perspectiva, não é qualquer pensamento que pode ser caracterizado como Filosofia, mas o pensamento que subverte a mentalidade mítico/religiosa. Para a visão de mundo alinhada ao mito, a realidade funciona por meio da ação de deuses que exercem domínio sobre a natureza e tudo que nela habita. Como consequência, o universo não pode ser verdadeiramente conhecido, pois, estando subordinado a divindades, os fenômenos podem mudar conforme sua vontade. Algo mais ou menos assim: “querendo, Zeus se transforma em quem quiser, ou Poseidon envia uma tempestade imediata.”

 

 

 

Marcien Towa: filósofo camaronês

 

 

Já a Filosofia é o tipo de pensamento que procura (e acha) ordem por trás do aparente caos do universo. Assim, para os gregos, Tales foi o primeiro filósofo porque associou as transformações da Natureza à água, um elemento natural, portanto, algo tangível, mensurável, acessível para nós — diferente da mente e do poder de uma divindade, conforme expressa o mito.

Entre os primeiros filósofos gregos, ainda se destaca Heráclito de Éfeso. Bastante conhecido por sua concepção mobilista da natureza, em que a mola mestra da realidade seria a contínua mudança que atinge a tudo. Cabe a ele a introdução do termo logos como sinônimo de princípio ordenador ou uma lei universal do cosmos. O logos de Heráclito organiza as transformações incessantes e eternas na natureza, é algo que abarca todos os fenômenos, desvelando uma ordem interna ao mundo.

Se é verdade que Tales e Heráclito são filósofos pois procuram um elemento ordenador para os fenômenos (o logos), a noção de Maat, além de ser anterior, cumpre a mesma função:

“De acordo com nosso conhecimento, nem as normas éticas, nem as leis são, no Egito, entregues a um enviado único por um deus que aparece em meio a uma grande fúria de elementos, de temporais, de relâmpagos e tremores de terra. A organização da sociedade egípcia e a conduta do egípcio deviam ser regidas por um valor central: a Maat. Essa noção densa e complexa designa a ordem cósmica, social e interior. No plano físico, a Maat é exatidão, medida correta; no plano social ético, ela é verdade, justiça e ordem.” Marcien Towa – A ideia de uma Filosofia Negro Africana.

Maat é também o nome de uma divindade — a deusa da justiça, da verdade. Porém, convém notar a duplicidade semântica (quer dizer, de sentido) e observar que até mesmo na mitologia egípcia, os deuses estão submetidos à Maat, como princípio ordenador do universo.

“O que faz a divindade de um deus não é tanto a onisciência, nem tanto a onipotência, mas, antes de tudo, o respeito pela Maat, ou seja, pela verdade e pela justiça.” Marcien Towa – A ideia de uma Filosofia Negro Africana.

Maat é, portanto, algo subjacente à totalidade do mundo. É impessoal e acessível pela razão, pois se impõe a deuses e seres humanos. Nesse sentido, o discernimento racional equivale a compreender a ordem inerente ao mundo e se harmonizar a ele. A mesma ideia está presente em filósofos gregos, como Platão, que defende que nos adequemos à ordem natural das coisas, deixando a razão guiar nossa alma e nossas cidades. Diante disso, parece difícil sustentar que apenas os gregos produziram Filosofia.

 

Questionar o cânone sobre a origem da Filosofia não tem como objetivo diminuir o pensamento helênico. Pelo contrário, enriquece não somente a tradição da filosofia grega, pois nos permite entender em que consistem suas novidades e reelaborações. Mas, além disso, nos permite vislumbrar uma potência humana universal de pensar sobre o Absoluto, sobre a realidade e seus fundamentos, e tentar decifrar a ordem no aparente caos que se desdobra diante de nossos olhos.

 

É certo que nem sempre essa potência se realiza, mas é especialmente importante fazer notar que, não importando o continente ou, por que não dizer, a cor da pele, o filosofar faz parte da experiência humana.

Compartilhe este post