“Arrastamo-nos atrás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto. Embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital, sem que possamos avaliar inteiramente as consequências dessa embriaguez. Essa cegueira e a estupidez simultânea a ela constituem a crise atual” No Enxame – Perspectivas do Digital
A obra do filósofo sul coreano Byung Chu-han esquadrinha o cotidiano. Seus livros discutem o mundo contemporâneo a partir de uma infinidade de problemas que parecem culminar em uma crítica ao paradigma neoliberal do individualismo e autodeterminação. Hoje em dia, a exploração do trabalho pelo capital foi substituída pela motivação. Não se trata de negar a liberdade em favor de um determinismo radical, mas sim de demonstrar como o sistema político e econômico atual oculta a dimensão social do ser humano com o intuito de favorecer um pequeno grupo dominante.
Em No Enxame – Perspectivas do Digital, Han faz um diagnóstico sobre os impactos da mídia digital no sujeito e na sociedade. Apesar da clara interrelação, irei comentar primeiro a respeito dos impactos na vida política. Tudo começa com a destruição do respeito entre as pessoas propiciado pela mídia digital. Em seguida, irei apresentar alguns prejuízos mencionados pelo autor na cognição e saúde mental.
MÍDIA DIGITAL E RESPEITO
O termo “mídia” designa “o meio” pelo qual algo transcorre. São mídias o papel (no qual os grandes jornais de outrora escreviam suas notícias ou panfletos de divulgação de produtos), o rádio e a televisão, por exemplo. A grande diferença entre estas mídias e a mídia digital é a velocidade e a produção difusa de informação sob a possibilidade de anonimato.
Pense por um instante: um jornal impresso demanda o tempo da redação da notícia, o tempo da impressão do material e ainda o tempo de transporte até o leitor. O rádio e a televisão podem até dar a notícia de maneira quase simultânea, porém, no caso da mídia eletrônica, quem informa (estação de rádio ou canal de televisão) se identifica. Por outro lado, na mídia digital, qualquer pessoa pode escrever uma notícia e difundi-la, seja em um blog como esse, ou em uma rede social. Pior ainda, pelo “zap-zap”…
Em muitos desses casos, quem produz a informação oculta sua identidade, deixando de ser, portanto, responsabilizado pelo que diz. Somado a isso, a superexposição da vida particular nas redes sociais, torna confusa a fronteira entre o público e o privado, fazendo crer muitas vezes, que qualquer coisa que se encontra na internet está aberta a escrutínio público. Tem-se a impressão de ter o direito a opinar sobre tudo, mesmo que a opinião expressada seja desrespeitosa e boçal. Em resumo, a mídia digital destrói a separação entre público e privado e, dessa maneira elimina o respeito necessário para a vida em comunidade.
“O respeito é o alicerce da esfera pública. Onde ele desaparece, ele desmorona. A decadência da esfera pública e a crescente ausência de respeito se condicionam reciprocamente. A esfera pública pressupõe, entre outras coisas, um não olhar para a vida privada. A tomada de distância é constitutiva para o espaço público. Hoje, em contrapartida, domina uma falta total de distância, na qual a intimidade é exposta publicamente e o privado se torna público” (p. 9)
TEMPESTADE DE B***@, MASSA E ENXAME
Você com certeza já testemunhou algo assim na internet: uma pessoa ou empresa, age de maneira teoricamente reprovável e recebe uma hashtag “indelicada” e centenas ou milhares de mensagens agressivas. Tudo isso acontece em dias, ou até mesmo em poucas horas. Sem discutir o mérito de casos particulares, Byung Chul-Han chama atenção para o fato de que as “Shitstorms” (que prefiro traduzir por “tempestades de indignação”) terem se tornado um expediente comum na era do digital. Elas são fruto da destruição do respeito.
Vivemos em uma época de escândalo. As pessoas se engajam em grandes campanhas difamatórias, mas tem dificuldade de se organizar em torno de objetivos políticos claros. Antes, os indivíduos fundiam-se em uma massa. O conceito de massa pressupõe a supressão do indivíduo a uma coletividade. É assim que ao longo do século XX, por exemplo, causas e líderes foram capazes de exercer poder sobre grandes contingentes populacionais. A massa é algo novo em que a junção das individualidades constituí um “Nós” com demandas mais ou menos claras.
O que observamos hoje com a emergência do digital é completamente diferente. A vida privada de celebridades ou campanhas publicitárias polêmicas engajam mais pessoas muito mais rapidamente do que um projeto de lei de iniciativa popular, por exemplo. O escândalo é o que mais mobiliza atualmente. E, reunir-se em torno de escândalos é diferente de reunir-se em prol da coletividade.
A imagem que melhor define o engajamento político mediado pelo digital é a do enxame. Pense no seguinte: uma massa de bolo, por exemplo, é composta por vários ingredientes, certo?! Ovos, farinha, leite, manteiga, essência de baunilha… ao juntar esses ingredientes tão diferentes uns dos outros, obtém-se algo novo. Os ingredientes se fundem e produzem algo com consistência e sabor diferentes.
Agora, visualize um enxame de abelhas, por exemplo. Ao contrário da massa de bolo, os elementos que o compõe não se misturam em algo novo. São apenas um conglomerado de indivíduos. Estão juntos, certamente, mas não se fundem. São apenas o amontoado de seres. Ao contrário das sociedades de massa, os enxames digitais não produzem um “ente” novo que visa uma causa maior. São apenas aglomerados de indivíduos: cada um dá uma “ferroada” e recolhe-se rapidamente para sua vida privada a espera de novo escândalo. Só então é que voltam a ser formar desintegrando-se novamente tão rápido quanto se fizeram.
“Os indivíduos digitais se formam ocasionalmente em aglomerados como, por exemplo, em Smart Mobs. Os seus paradigmas coletivos de movimento são, porém, como dos animais que formam enxames, muito efêmeros e instáveis. A volatilidade se destaca. Além disso, eles frequentemente passam uma impressão de serem carnavalescos, lúdicos e descompromissados. Nisso o enxame digital se distingue da massa tradicional, que, como a massa de trabalho não é volátil, mas sim dotada de vontade e não constitui um paradigma efêmero, mas sim formações firmes.” (p. 18)
O enxame produz apenas “barulho”. Todos os dias há uma polêmica nova nas redes sociais e uma hashtag propagando indignação e chamando para uma ação. No entanto, o que se observa é um ambiente incapaz de expressar e organizar demandas coletivas reais. Isso porque sua volatilidade não permite se transformar em política pública. Assim, a indignação que poderia se transformar em catalisador de uma transformação institucional acaba, na maioria das vezes, em uma petição online…
Poderíamos questionar essa perspectiva afirmando que novos movimentos surgiram e se articularam no digital: a “Primavera Árabe”, por exemplo, produziu mudanças institucionais concretas. Porém, se observarmos com atenção, a imensa maioria, se não todos os grandes movimentos que surgiram do digital têm potencial destrutivo, mas não regenerativo. Basta observar o estado atual das coisas no Oriente Médio… Poderia citar tantos outros exemplos de movimentos que se articulam por meio do digital (sobretudo pelas redes sociais), mas não gostaria de dar palco a movimentos negacionistas e conspiracionistas ensandecidos. Acredito que o leitor ou a leitora compreende o que estou falando.
CANSAÇO E PENSAMENTO CRÍTICO
Paralelo à destruição do espaço público, outro processo transcorre nos meios digitais: as pessoas vivenciam um cansaço extremo e uma enorme dificuldade de pensar criticamente. Os smartphones são um grande ícone deste fenômeno. Com um smartphone, a avalanche de informação nos alcança em qualquer lugar. Mas, mais problemático que isso, nosso trabalho nos alcança em qualquer lugar e em qualquer horário. Como resultado, não temos tempo de descanso e, sem descanso, só resta a exaustão.
Exaustos e imersos em um mar de informações que nos bombardeiam constantemente (nem todas, digamos, edificantes) é natural que tenhamos dificuldade para nos debruçar de forma profunda e concentrada sobre as coisas. Ora, praticamente tudo é rápido e de fácil assimilação no meio digital. Somos interrompidos o tempo todo: por notificações de Instagram ou mensagens de WhatsApp. Pensar criticamente, porém, exige de nós tempo, atenção, foco, pausa. Exatamente o contrário do que o digital oferece.
Não é que a abundância de informação seja um problema em si. É maravilhoso que se tenha acesso a vários portais de notícia, por exemplo. Posso entrar no site do The Guardian e ler várias matérias que há 20 anos não teria acesso (a não ser que alguém me enviasse um exemplar direto da Inglaterra) e isso é, de fato, ótimo! O problema é o superestímulo.
Caímos na armadilha dos gadgets. Supostamente, quanto mais digitalizarmos o nosso cotidiano, melhor será a nossa vida. Mas o resultado que se tem observado é o oposto. Mais ferramentas digitais só nos mantém mais presos ao digital. Assim, trabalhamos, nos divertimos e amamos olhando para as telas. Será por isso que depressão, síndrome de burnout, hiperatividade e déficit de atenção são doenças tão comuns hoje em dia?
CIDADANIA E CONSUMO
Exaustos, somos incapazes de pensar criticamente e incapazes de pensar criticamente, não podemos nos organizar politicamente. O digital transformou a cidadania em consumo. Estamos online, consumimos, postamos e compartilhamos informações, mas não conseguimos produzir consensos políticos. As hashtags se sobrepõem ao debate político. Os algoritmos radicalizam as pessoas, destruindo uma arena comum em que as divergências possam ser equalizadas. A democracia se subordina ao enxame digital.
É sedutor o discurso sobre o poder das redes. Porém, na prática, quando as instituições se dobram às tempestades de indignação o debate cessa. Se cessa o debate, cessa também a própria política.
PSICOPOLÍTICA
Não deve ser novidade para você que os dispositivos que usamos coletam informações pessoais. Suas pesquisas no google ou as páginas que você curte no Facebook estão à disposição das empresas que fornecem esse serviço. Todo esse volume imenso de dados que concedemos de bom grado às megacorporações de tecnologia permite que elas formem um perfil bem específico de quem somos, o que gostamos e o que pensamos.
Esses dados permitem a essas corporações prever e modificar o nosso comportamento, por meio de um controle sutil de nossa psiquê. O grande salto, porém, é que não percebemos facilmente como estamos sendo manipulados, pois acreditamos que é uma escolha livre checar as redes sociais dezenas de vezes ao dia, quando, na realidade, existe um investimento massivo em pesquisas que exploram as fragilidades do cérebro humano para nos manter online o tempo todo.
Essa sensação de liberdade, embrulhada em um papel de presente de grego, constitui um novo sistema de controle chamado por Han de Psicopolítica. Em contraposição à Biopolítica, que consiste na gestão e controle dos governos sobre o corpo e a saúde dos cidadãos, a Psicopolítica exerce controle sobre suas mentes e subjetividade.
SAÍDA?
Pode um pouco angustiante pensar como bicho van estabelece a crítica a sociedade atual. não há na obra uma saída muito bem detalhada. RAM chega a mencionar timidamente algumas atitudes que podem nos ajudar a lidar com o meio digital. Por exemplo, controlar a nossa superexposição as redes certamente ajuda. Porém, sua obra concentra-se muito mais em um diagnóstico é uma crítica conforme dissemos acima. Se não nos oferece uma resposta sobre o que fazer, pelo menos nos concede uma pausa para pensar e um sopro de esperança de que, conscientes do que acontece, possamos elaborar formas melhores de viver. Conseguiremos sair do labirinto em que nós mesmos nos metemos?