“O sujeito de desempenho esgotado, depressivo está, de certo modo, desgastado consigo mesmo. Está cansado, esgotado de si mesmo, de lutar consigo mesmo.” Sociedade do Cansaço
De todos os lados, um ruído se faz presente. Junto ao incessante discurso de produtividade e positividade, bem ao fundo, é possível escutar gemidos e lamentos que resistem em contrapor a narrativa oficial do neoliberalismo. São os fracassados, os incapazes, aqueles que não resistem à pressão do mundo moderno, os que não se adaptaram. Ao menos é assim que o sistema os classifica.
Byung Chul-Han, filósofo sul-coreano e professor da Universidade de Berlim, traduz essa cacofonia em sua filosofia, cujo argumento mais geral pode ser encontrado em “Sociedade do Cansaço” e “Psicopolítica”. Meu objetivo aqui é apontar alguns dos principais tópicos discutidos pelo autor nessas duas obras e refletir sobre algumas questões relacionadas.
Sociedade do Desempenho
À primeira vista, vivemos em uma época de grande liberdade e positividade. O intenso fluxo de comunicação e capital que caracteriza o mundo contemporâneo dá a impressão de estarmos em um período da história humana no qual todos os nossos sonhos podem se realizar…basta ter força de vontade!
Byung Chul-Han nota que essa perspectiva não é um ponto de vista neutro e desinteressado, mas sim, um refinamento das estratégias de dominação capitalistas. O que o sistema descobriu, de acordo com ele, é que as pessoas produzem muito mais se estiverem convencidas de que essa é sua escolha do que se forem obrigadas e pressionadas por outra pessoa. Ou seja, é mais proveitoso incutir nas pessoas a ideia de que elas podem tudo, que não há impeditivos a não ser sua própria força de vontade e engenhosidade, do que submetê-las por meio de ameaças e privações.
Assim, motivando e seduzindo, o neoliberalismo mantém todos em estado constante de produção, subtraindo qualquer tempo lúdico. Não há mais espaço para o tédio. Recusamos o tédio e o silêncio profundo para rolar feeds de redes sociais ou maratonar séries na Netflix (muitas vezes fazemos as duas coisas ao mesmo tempo). Fazendo isso, consumimos. Consumindo, aumentamos a demanda de produtos e serviços enquanto nos apartamos cada vez mais de uma vida propriamente humana.
“Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda. Essa atenção profunda é cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção. Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos.” Sociedade do Cansaço
A exemplo das máquinas que podem produzir ininterruptamente, somos levados pelo burburinho da produtividade e do desempenho a produzir em escala sobre-humana. Para isso, vale tudo. Inclusive recorrer ao “doping”: pílulas e métodos elaborados (como a Estimulação Transcraniana) que visam aprimorar o rendimento.
O saldo desse processo é visível graças aos números alarmantes de doenças neuronais como depressão, síndrome de burnout, TDAH e transtorno de ansiedade generalizada. A saúde mental emerge com força total, porque as pessoas, incapazes de lidar com a pressão por desempenho voltam-se violentamente contra si mesmas, acreditando que deveriam “dar conta” de produzir mais. Acreditam-se culpadas por não alcançar o destaque ou as riquezas prometidas pelo sistema:
“A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível. (…) O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada. A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade.” Sociedade do Cansaço
Biopolítica e Psicopolítica
O termo “Biopolítica”, cunhado por Foucault expressa as técnicas de dominação que começaram a tomar forma no final do século XVIII. Sua grande característica é o estabelecimento de proibições que se expressam por meio de instituições e discursos que visam disciplinar o corpo às necessidades do capitalismo industrial que então surgia. Era preciso conformar grandes contingentes populacionais à dinâmica da produção fabril, impondo aos dissidentes castigos e punições.
“O avanço da industrialização torna necessário disciplinar o corpo e adaptá-lo à produção mecânica. Em vez de torturar o corpo, o poder disciplinar o insere em um sistema de normas. Uma coerção calculada perpassa todas as partes do corpo até a automação dos hábitos e a transformação do corpo em uma máquina de produção.” Psicopolítica
Para Byung Chul-Han, o capitalismo em sua forma neoliberal modifica o eixo do controle. Agora, ele opera primordialmente sob a psiquê da população. Não é que as estratégias descritas por Foucault tenham deixado de existir, mas elas vêm sofrendo um acréscimo. É verdade que, para Foucault, a Biopolítica também ataca a esfera mental das pessoas, porém, Chul-Han argumenta que seu alcance é limitado, pois suas “ferramentas” não fornecem acesso tão agudo aos seus pensamentos.
“A biopolítica, que usa as estatísticas demográficas, não possui acesso ao psíquico. Ela não fornece um psicograma da população. A demografia não é uma psicografia; não explora a psique. Aí reside a diferença entre estatística e big data. A partir do big data é possível extrair não apenas o psicograma individual, mas o coletivo, e quem sabe até o psicograma do inconsciente. Isso permitiria expor e explorar a psique até o inconsciente” Psicopolítica
Dessa forma, a psicopolítica expande o acesso e consequentemente o domínio sobre os indivíduos. Como estamos dispostos a oferecer nossos dados e nossa privacidade por meio das redes sociais, ofertamos indiretamente acesso aos nossos pensamentos e predisposições internas. Como resultado, submetemo-nos ao poder sutil cujo objetivo é nos manter produzindo incessantemente.
Liberdade e coerção
A posse de nossa subjetividade, assegurada pelo registro constante do fluxo de nossa vida digital, faz com que o neoliberalismo nos influencie de forma sofisticada. É, como diz Byung Chul-Han, um exercício inteligente do poder. Ao contrário da biopolítica que nos cerceia, a psicopolítica nos aborda com estímulos positivos. Registra nossas inclinações por meio do big data e opera a partir delas para nos habituar a jornadas de trabalho cada vez maiores e a uma cobrança avassaladora de nós mesmos. Acreditamos que tudo é possível, a não ser que nós sejamos incapazes. Para assegurar nosso lugar entre os “vencedores” impomos uma pressão por desempenho cada vez maior até o autoextermínio.
O que nos escapa, no entanto, é que essa busca desenfreada por um “eu ideal” é fruto de um processo maior de coerção. O sujeito de desempenho acredita-se livre, mas não percebe como o ambiente em que está inserido o conduz a compartilhar a crença da autoexploração como liberdade. Não há repouso, apenas intervalo entre um turno de trabalho e outro, período que passamos geralmente quase inteiro frente às telas (gerando mais dados e consumindo produtos e serviços) ou nos cobrando por não sermos produtivos. Como não há silêncio e introspecção, tomamos uma pílula qualquer para amenizar o ruído interno e voltamos à escala de produção sem ter nem mesmo tempo de compreender o que está acontecendo.
Em algum momento, você que me lê, provavelmente se questionou se tudo isso não seria apenas ladainha de “gente preguiçosa” ou “fraca”. Afinal, é uma “lei da natureza”! Precisamos nos adaptar! É preciso lembrar, no entanto, que esse darwinismo social não se sustenta, pois, sendo capazes de identificar as causas do problema, temos então capacidade de moldar nosso próprio ambiente. Quer dizer, se encontramos o que gera esses altos índices de doenças mentais, temos a escolha de transformar as circunstâncias produzindo novos efeitos.
Os ideólogos do neoliberalismo, certamente se incomodam com a crítica de Chul-Han, pois o filósofo sul coreano demonstra a inconsistência do discurso individualizante, do “empreendedor de si mesmo”. Caberia taxar qualquer crítica a esse respeito de uma ameaça à liberdade tão valiosa para as sociedades ocidentais. Mas, na realidade, o ponto alto da análise de Byung Chul-Han é demonstrar que essa “liberdade” não é uma liberdade real, mas um simulacro que, a exemplo de uma roda de hamster, apenas mantém as engrenagens funcionando premiando os sobreviventes com mais pressão por desempenho até o limite de sua sanidade.